O castelo de cartas, a teoria e a tese
A aula desta semana da disciplina de Tecnologias Digitais começou com uma dinâmica em grupo: montar um castelo de cartas.
No início, a dinâmica já se mostrava
bastante significativa. Mas, à medida que tentávamos montar a estrutura e
víamos o castelo desmoronar, fui percebendo que ela carregava uma reflexão
ainda mais profunda. Construir o castelo não dependia só de vontade. Exigia
estratégia, interação, paciência, organização e, acima de tudo, uma base bem
feita.
Ao final da dinâmica, retomamos elementos
da semana passada: a importância da interação entre os pares, o quanto conhecer
melhor a estrutura ou algumas técnicas poderia ter ajudado e como as atividades
compartilhadas fortalecem o processo de construção. No fundo, o castelo de
cartas acabou simbolizando algo que fez muito sentido para mim: a tecnologia
pode ajudar, pode ampliar caminhos, pode até acelerar processos, mas sem base
teórica tudo fica instável. A teoria não aparece como enfeite. Ela é o que sustenta.
Durante a atividade, também fiz uma
associação com o diagrama de causa e efeito que havíamos construído
anteriormente. Tínhamos um problema concreto diante de nós: o castelo não se
mantinha de pé. E, diante disso: quais eram as causas? O que estava
dificultando? Faltava técnica? Faltava compreender a estrutura? Faltava mais
alinhamento entre os integrantes? Faltava planejamento? Achei interessante
perceber como o diagrama de Ishikawa já começou a afetar a forma como eu
observo os problemas. Não mais apenas olhando para o efeito final, mas tentando
entender o que está por trás dele.
Depois, seguimos justamente discutindo
como foi construir o diagrama de Ishikawa, quais dificuldades encontramos e
como essa atividade ajudou no avanço da disciplina e na abordagem dos artigos
disponibilizados. Eu, particularmente, gostei bastante. Foi uma atividade que
me fez ler melhor, organizar melhor as ideias e enxergar as relações entre os
elementos com mais clareza. Senti que não era apenas uma tarefa para preencher
um esquema, mas um exercício real de análise.
Outro ponto importante da aula foi a
reflexão sobre a perspectiva de ecossistema na educação, especialmente quando
fomos provocados a pensar sobre: usar ou não usar tecnologias? Ao longo da
conversa, foi ficando claro para mim que essa já nem é mais a pergunta central.
A tecnologia já está inserida em nossas vidas. Ela atravessa nossa comunicação,
nosso trabalho, nossos modos de aprender, ensinar, pesquisar e interagir. O
desafio, então, (como eu disse o Professor Fernando) não é decidir simplesmente
se usamos ou não, mas compreender como incorporamos essas tecnologias de forma
crítica, consciente e com intencionalidade pedagógica.
Durante a discussão, o professor Fernando perguntou
qual teoria da aprendizagem fundamenta as nossas teses. Na hora, respondi que
tenho me aproximado do Conectivismo, justamente porque ele dialoga com o que
venho tentando construir no projeto. Entendo que essa aproximação faz sentido
porque minha pesquisa discute a inserção da IA generativa no currículo do
ensino médio técnico a partir de experiências formativas desenvolvidas em
laboratórios makers, ou seja, em espaços marcados por interação,
experimentação, colaboração e circulação de saberes.
Nesse contexto, o Conectivismo me parece
uma possibilidade teórica importante, pois compreende a aprendizagem como um
processo que se constrói em rede, nas conexões entre sujeitos, tecnologias,
informações e práticas.
Mas confesso que saí da aula pensando
melhor sobre a minha própria resposta. Não porque ela estivesse,
necessariamente, errada, mas porque percebi que ainda preciso amadurecer mais
essa base teórica e fortalecer com mais clareza o alicerce conceitual da tese.
No fim, a metáfora do castelo de cartas também falou diretamente comigo: talvez
eu precise revisar melhor as estruturas que sustentam minha pesquisa, para que
ela fique de pé com mais firmeza, consistência e sentido.
Na sequência da aula, iniciamos o novo PBL
com as colegas Mayara e Larissa, a partir do Problema 5, sobre as
possibilidades e os limites das tecnologias digitais no ensino. A discussão,
fundamentada no relatório 2026 Students and Technology, da EDUCAUSE,
trouxe um cenário muito atual e necessário. Falamos sobre como as tecnologias
digitais, especialmente a inteligência artificial generativa, vêm
reconfigurando o ensino superior, ao mesmo tempo em que surgem preocupações
relacionadas à segurança de dados, privacidade, uso acrítico das ferramentas e
bem-estar digital.
O mais interessante é perceber como essa
aula se conectou com as semanas anteriores. Aos poucos, tudo vai se
encontrando: a discussão sobre o que é tecnologia, a crítica à digitalização
sem transformação pedagógica, o diagrama de causa e efeito, a ideia de
ecossistema, a centralidade da teoria, os limites e possibilidades das
tecnologias... Nada ficou solto. Tudo parece estar ajudando a formar, em mim,
um olhar mais atento, mais crítico e também mais responsável sobre a disciplina
e também sobre o tema que escolhi pesquisar.
No fim das contas, talvez a grande lição
da aula tenha sido simples e profunda ao mesmo tempo: nenhum castelo se
sustenta sem base. E, na pesquisa, isso também vale.

Olá Ricardo. Seu texto revela um movimento muito consistente de reflexão, articulando vivência, teoria e pesquisa de forma sensível e crítica. É visível sua dedicação, seu processo de superação e, sobretudo, o amadurecimento do seu olhar investigativo ao longo da disciplina. Você não apenas descreve a experiência, mas a ressignifica, o que é um indicativo importante de avanço no doutorado.
ResponderExcluirNo entanto, há um ponto que pode tensionar ainda mais sua construção: você reconhece a importância da base teórica, identifica lacunas e dialoga com conceitos como ecossistema, conectivismo e mediação, mas ainda não materializa essas compreensões na organização histórica e analítica que o PBL está provocando.
Diante disso, deixo a seguinte provocação: como a construção de uma linha do tempo crítica (que evidencie não apenas marcos tecnológicos, mas também suas bases epistemológicas, limites recorrentes e implicações para sua pesquisa com IA generativa) pode contribuir para fortalecer o “alicerce” da sua tese e evitar que suas próprias proposições se tornem um novo “castelo de cartas”?
Olá Professor!
ExcluirEntendo que a construção dessa linha do tempo me fez fortalecer alguns pontos da minha tese justamente porque ela me faz olhar para a tecnologia com menos encantamento e mais profundidade.
Quando organizei esse percurso histórico, percebi que muitas questões que hoje aparecem com a IA generativa, na verdade, retomam problemas que já estavam presentes em outros momentos: a promessa de inovação, o uso instrumental das tecnologias, a fragilidade da formação docente, a distância entre o que as políticas propõem e o que realmente acontece nas práticas pedagógicas.
Para mim, esse movimento foi importante porque evita que eu trate a IA generativa como uma novidade isolada ou como uma solução pronta. A linha do tempo me ajudou a entender que ela faz parte de uma trajetória maior, marcada por avanços, rupturas e permanências. E isso ajuda no foco da minha pesquisa: em vez de pensar apenas em como inserir IA no currículo técnico, eu passo a pensar sobre em que condições essa inserção pode, de fato, produzir experiências formativas mais críticas, significativas e pedagógicas.
Também percebi que esse exercício me deu mais consistência na base teórica. Se eu quero dialogar com ideias como mediação, conectivismo e ecossistema, preciso mostrar como esses conceitos se relacionam com esse percurso histórico e com os modos reais de apropriação das tecnologias na escola. A linha do tempo, então, não serviu apenas para organizar fatos; ela passou a funcionar como um mapa de leitura.