No meio do caminho, um novo olhar: autoavaliação na disciplina Tecnologias Digitais no Ensino
Quando iniciei o doutorado, uma das minhas maiores dúvidas era justamente compreender como seria, na prática, viver essa experiência. Havia expectativa, entusiasmo, mas também muitas incertezas. Nesse sentido, a primeira aula da disciplina Tecnologias Digitais no Ensino foi muito marcante para mim, porque ela acabou ditando o ritmo do que eu começava a entender como formação em nível de doutorado e, de certo modo, antecipando o que talvez eu viva ao longo desses quatro anos. E isso foi algo muito positivo. O professor Fernando me apresentou uma forma diferente de sala de aula, de condução das discussões e de relação com o conhecimento. Foram muitas leituras logo no início, o que exigiu de mim mudança de postura, organização e disposição real para entrar no ritmo da disciplina. Eu me desafiei. Tentei não permitir que a rotina, as demandas do dia a dia e o cansaço me afastassem daquilo que eu desejo construir no doutorado. Hoje, consigo visualizar melhor onde quero chegar, embora saiba que ainda estou em caminhada.
Ao longo dessa primeira metade da
disciplina, fui amadurecendo à medida que fui sendo provocado, mas também à
medida que passei a me provocar mais. Isso talvez tenha sido uma das mudanças
mais importantes desse processo. Percebi que a disciplina não estava apenas me
oferecendo conteúdo ou autores, mas ampliando meu horizonte de ideias,
expandindo meu banco de artigos e, principalmente, mudando minha forma de olhar
para o doutorado e para o meu próprio projeto de tese.
Aos poucos, fui percebendo que as
discussões, os textos e os debates não ficavam apenas no campo da disciplina,
mas começavam a iluminar caminhos para a minha própria pesquisa. Nessa primeira
metade, fui tentando definir melhor os autores e textos-base que podem
sustentar minha investigação. Passei a compreender e ler com mais frequência o
socioconstrutivismo de Vygotsky, o conectivismo de Siemens e Downes, além de
contribuições de autores como Lévy, Valente e Almeida, Coll e Monereo, Campos e
Blikstein, Pimentel, entre outros, que vêm ampliando meu olhar sobre currículo, mediação,
aprendizagem em rede e experiências formativas com tecnologias.
Hoje entendo que subi um degrau, entre
muitos que ainda virão, mas um degrau importante. Tenho aprendido novos
conceitos e, mais do que isso, venho compreendendo que eles carregam caminhos
epistemológicos, historicidades, bases teóricas, tensões e disputas de sentido
que precisam ser consideradas com mais profundidade.
A dinâmica do PBL também tem contribuído
muito para isso. Tenho buscado chegar mais preparado para os debates, tentando
argumentar não apenas a partir da experiência ou da opinião, mas com base em
leituras, autores e fundamentos. Percebo, como parte da minha autoavaliação,
que hoje consigo falar mais em sala com firmeza e com maior entendimento
teórico. Tenho tentado evitar o uso de exemplos da minha prática docente de
maneira solta, desconectada de uma sustentação mais consistente. Antes, eu
ouvia muitos autores sendo mencionados e, por ainda não os conhecer de forma
mais aprofundada, isso me causava um certo deslocamento.
Ao mesmo tempo, esse desconforto teve um
efeito importante: ele me impulsionou para as leituras. Fui entendendo melhor
os debates, acompanhando mais as discussões e ampliando minha base teórica.
Minha planilha de artigos, inclusive, vai crescendo junto com esse processo.
Outro ponto que ganhou um novo significado
para mim foi o portfólio. No começo, ele parecia algo simples, quase apenas
mais uma atividade de registro. Com o andamento da disciplina, fui entendendo
sua importância real como espaço de reflexão, de memória intelectual e de
acompanhamento do próprio processo formativo. Passei a perceber que ele pode
revelar não apenas o que foi feito, mas como fui pensando, mudando, duvidando e
amadurecendo ao longo da disciplina. Ainda assim, reconheço que não consegui
utilizá-lo em toda a sua potência. Sinto que poderia ter explorado mais esse
espaço, tornando-o ainda mais vivo, mais analítico e mais revelador do meu
movimento intelectual.
Chegando a este momento da disciplina,
percebo que não estou apenas lendo mais: estou tentando problematizar mais.
Estou aprendendo a ouvir melhor meus colegas, a crescer com os debates, a
contribuir com meus grupos nos PBLs e, ao mesmo tempo, a permitir que essas
trocas ampliem o meu próprio conhecimento. Quero continuar crescendo,
aprendendo, aprofundando leituras, entendendo melhor os conceitos e
fortalecendo minha participação na segunda metade da disciplina. Quero seguir
amadurecendo teoricamente, com mais coragem intelectual e mais consciência do
percurso que estou construindo.
Definitivamente, o meu copo foi esvaziado naquela primeira aula. E talvez esse tenha sido um dos maiores ganhos até aqui: entender que, para aprender de verdade no doutorado, eu precisava primeiro abrir espaço dentro de mim para rever certezas, reconstruir caminhos e me colocar, de forma honesta, na posição de quem ainda tem muito a aprender.

Sua percepção de que os conceitos carregam “historicidades”, tensões e disputas de sentido se alinha com o que também estou vivenciando: o desafio de não apenas citar autores como Valente e Pimentel, mas de compreender as bases epistemológicas que os sustentam.
ResponderExcluirEntre as bases que você mencionou, qual delas você sente que está mais alinhada com a sua tese, ajudando a transformar esse desconforto inicial em uma firmeza teórica maior?
Olá Ricardo! Me identifiquei com esse início cheio de expectativas e incertezas, e principalmente com esse “impacto” da primeira aula, que realmente mudou nossa forma de enxergar a disciplina, o Doutorado pra você e o Mestrado para mim.
ResponderExcluirTambém me vi nesse movimento que você traz de passar a se provocar mais e não apenas receber os conteúdos, buscando um olhar mais crítico sobre os autores e as discussões.
A forma como você falou do portfólio também fez muito sentido para mim, porque aos poucos a gente vai percebendo que ele revela nosso próprio processo de construção.
Te desejo muitos aprendizados nessa segunda metade da disciplina!
Lindo texto! Gostei de como você reconhece que não está apenas acumulando leituras, mas aprendendo a problematizar, argumentar e se posicionar teoricamente. A imagem do “copo esvaziado” fecha a reflexão com muita coerência.
ResponderExcluirMe reconheço muito na forma honesta como você descreve as expectativas, as incertezas e os desafios desse início d percurso. Seu texto mostra um processo real de amadurecimento acadêmico, especialmente quando você fala do “esvaziamento do copo” e da necessidade de reconstruir caminhos. É uma autoavaliação muito sincera e reflexiva, que mostra o quanto você está comprometido com seu processo de formação.
ResponderExcluir