Quando o desafio é construir, e construir junto
A nona semana da nossa disciplina chegou trazendo um tema que, à primeira vista, parece técnico, mas que mexe com algo bem mais profundo da nossa formação docente: o design de atividades didáticas mediadas por tecnologias. A questão central é simples de enunciar e difícil de praticar, como planejar uma aula em que a tecnologia não seja um enfeite, um substituto raso do quadro-negro, mas um elemento integrado, intencional e pedagógico do processo de aprendizagem? O professor e a dupla da semana do PBL nos propôs duas tarefas articuladas:
· Primeiro, a leitura dos textos da semana, organizados em
referências básicas e complementares.
· Em seguida, um desafio: um trabalho compartilhado em grupo,
com encontro fora do horário de aula, para produzir coletivamente um framework
de design didático usando uma ferramenta digital colaborativa.
Nossa turma sempre se
ajudou. O grupo de WhatsApp funciona como uma pequena sala de aula, em que
dúvidas, prints de slide, recados e até desabafos circulam por lá. Mas uma
coisa é trocar mensagens, outra, bem diferente, é precisar marcar reunião fora
do horário institucional, organizar agenda, dividir tarefas e produzir um
artefato comum. 😟
Para mim, especificamente,
a semana foi puxada. Filhos doentes, e eu ainda estava envolvida em algumas
ações institucionais que ocuparam grande parte do meu tempo e não consegui
participar de forma colaborativa no momento em que o grupo se reuniu. Quando
finalmente consegui entrar no encontro virtual, ele já tinha encerrado.
Mas, o nosso colega Diogo
gravou um vídeo explicando tudo o que tinha sido discutido, escreveram um texto
curto sistematizando as decisões e me passaram com clareza qual seria a minha
função na construção do trabalho.
Organizados e com as
tarefas distribuídas, partimos para o foco do trabalho: a construção de um
framework visual para orientar o planejamento de atividades didáticas mediadas
por tecnologias, estruturado a partir das leituras da semana. Escolhemos o Canva
como ferramenta colaborativa por sua acessibilidade e pela possibilidade de
edição simultânea entre os integrantes.
O título que combinamos para o nosso artefato foi: “O Design Didático em Ação: Framework para Ecossistemas de Aprendizagem”
Nosso framework não foi inventado do zero: ele é, na verdade, a tradução visual e prática de um conjunto de leituras teóricas que nos sustentaram.
TPACK como bússola de planejamento
Koehler, Mishra e Cain (2013) sintetizam o modelo TPACK afirmando que
ele “descreve os tipos de conhecimento de que professores necessitam para
ensinar com tecnologia, bem como as formas complexas em que esses corpos de
conhecimento interagem entre si”. Esse foi o ponto teórico mais decisivo para o
nosso Bloco 2. O TPACK nos ajudou a entender que não basta dominar a tecnologia
(TK), o conteúdo (CK) ou a pedagogia (PK) isoladamente — o que importa é a
interseção entre eles. Como afirmam os autores, “bom ensino, com tecnologia,
exige um deslocamento nos domínios pedagógico e de conteúdo existentes”
(Koehler; Mishra; Cain, 2013, tradução nossa).
Essa mesma ideia foi reforçada por Alivi (2019), que articula o TPACK
com a escala SAMR de Puentedura. A autora lembra que “não há nenhuma solução
tecnológica única que se aplique a todo professor, todo curso ou toda visão de
ensino” (Mishra & Koehler, 2006, apud Alivi, 2019). Foi essa noção que
justificou o uso da escala SAMR como critério adicional no nosso framework: não
basta integrar tecnologia — é preciso saber em que nível essa integração
ocorre, da simples substituição à redefinição da tarefa.
Afetibilidade: a dimensão
afetiva da interação
Hayashi e Baranauskas (2013), em seu trabalho sobre Affectibility and
Design Workshops, defendem que os processos de design tradicionais negligenciam
a dimensão afetiva da interação humano-computador, e que tecnologias
educacionais precisam ser pensadas como artefatos sensíveis às experiências,
emoções e contextos de vida dos usuários. Essa perspectiva foi fundamental para
que nosso framework incluísse a afetibilidade como critério explícito de
escolha de artefatos digitais (Bloco 2), e não apenas como detalhe estético.
Aprendi, com as autoras, que sentimentos, valores e cultura dos sujeitos
influenciam (e são influenciados pelo) uso das ferramentas digitais — e ignorar
isso é empobrecer o ato educativo.
Tecnologias tangíveis e co-construção de narrativas
Posada (2015), na apresentação de sua tese sobre interfaces tangíveis e
ambientes educacionais para co-construção de narrativas, lembra que “contar
histórias é uma atividade autêntica e pessoalmente relevante”, que pode ser
potencializada pela tecnologia para estender as capacidades de expressão e
comunicação das crianças (e dos aprendizes em geral). Essa ideia inspirou
diretamente o Bloco 3 do nosso framework, especialmente o terceiro movimento
(Síntese e Co-construção), em que os estudantes não apenas absorvem
informações, mas constroem juntos uma resposta ao problema, com mediação
tecnológica.
Bases psicopedagógicas: construtivismo e mediação
Coll e Monereo (2010), na parte II de Psicologia da Educação Virtual,
oferecem o fundamento construtivista para tudo o que pensamos sobre
aprendizagem em ambientes mediados por tecnologia. Os autores trabalham o
conceito de triângulo interativo (professor–aluno–conteúdo), agora
reconfigurado pelas TIC, e a noção vigotskiana de instrumentos psicológicos
como mediadores que reestruturam funções mentais superiores. Essas referências
sustentam, em especial, os indicadores de carga cognitiva e de mediação no Bloco
3 e a discussão sobre riscos cognitivos no Bloco 5.
Didática crítica e mediação pedagógica
Rêgo e Lima (2010), no material de Didática da UPE, lembram que “no
ensino que temos, testa-se muito e avalia-se pouco”, e que “a avaliação implica
sempre aprendizagem e nasce do desejo de conhecer”. Essa perspectiva orientou o
Bloco 4 do nosso framework, em que defendemos uma avaliação mediadora,
processual, focada no acompanhamento do processo e no uso crítico da
tecnologia, não na estética do produto final. As autoras também nos ajudam a
pensar a mediação pedagógica como conceito-chave: o professor é mediador entre
o conhecimento e o aprendente, e essa mediação se enriquece — mas também se
complexifica — com a introdução das tecnologias digitais.
O olhar sobre a realidade brasileira
Lima e Viana (2018), no capítulo “Prática docente com uso de Tecnologias
Digitais da Informação e Comunicação: possibilidades e limites”, situam o
debate no contexto concreto da escola brasileira, apontando que a simples
presença de equipamentos não garante transformação pedagógica — é a
intencionalidade didática do professor que determina o sentido educativo do uso
dessas tecnologias. Os autores também listam limites que precisam ser
enfrentados: infraestrutura desigual, formação docente insuficiente e resistências
culturais. Foi a partir desse diagnóstico realista que construímos o Bloco 5,
em especial o plano de contingência analógico para falhas de conectividade.
O framework finalizado
Abaixo, apresento o framework finalizado pelo nosso grupo, na forma como
ficou no Canva.
Figura 1 — Framework “O Design Didático em Ação:
Framework para Ecossistemas de Aprendizagem”, produzido coletivamente no Canva.
Link para acesso ao framework: https://canva.link/aosgqgw1c5w9icf
Referências
ALIVI, J. S. A Review Of TPACK And SAMR
Models: How Should Language Teachers Adopt Technology? Journal of English for
Academic and Specific Purposes (JEASP), v. 2, n. 2, p. 1-11, dez. 2019.
COLL, C.; MONEREO, C. (Orgs.). Parte II:
Fatores e processos psicológicos envolvidos na aprendizagem virtual: um olhar
construtivista. In: COLL, C.; MONEREO, C. (Orgs.). Psicologia da educação
virtual: aprender e ensinar com as tecnologias da informação e da comunicação.
Porto Alegre: Artmed, 2010. p. 97-136.
HAYASHI, E. C. S.; BARANAUSKAS, M. C. C.
“Affectibility” and Design Workshops: Taking actions towards more sensible
design. In: Proceedings of the 12th Brazilian Symposium on Human Factors in
Computing Systems (IHC ’13). Porto Alegre: SBC, 2013. p. 3-12.
KOEHLER, M. J.; MISHRA, P.; CAIN, W. What is
Technological Pedagogical Content Knowledge (TPACK)? Journal of Education, v.
193, n. 3, p. 13-19, 2013.
LIMA, I. P.; VIANA, M. A. P. Prática docente
com uso de Tecnologias Digitais da Informação e Comunicação: possibilidades e
limites. In: MERCADO, L. P. L.; VIANA, M. A. P.; PIMENTEL, F. S. C. (Org.).
Estratégias Didáticas e as TIC: ressignificando as práticas na sala de aula.
Maceió: Edufal, 2018. p. 99-120.
MERCADO, L. P. L. (Org.). Integração de
mídias nos espaços de aprendizagem. Em Aberto, Brasília: INEP, v. 22, n. 79, p.
1-197, jan. 2009.
POSADA, J. E. G. Interfaces Tangíveis e o
Design de Ambientes Educacionais para Co-construção de Narrativas. Tecnologias,
Sociedade e Conhecimento, Campinas, v. 3, n. 1, p. 104-107, dez. 2015.
RÊGO, L. B. do; LIMA, M. V. R. de O.
Didática. Recife: Editora da Universidade de Pernambuco (UPE), 2010. 44 p.
THE TPACK Framework Explained (With Classroom
Examples). PowerSchool, [s. l.], 20 abr. 2025.

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