Dispositivos móveis, educação e infância: reflexões entre a teoria e a vivência
Outro
aprendizado importante foi perceber que os dispositivos móveis possuem grande
potencial pedagógico, mas esse potencial não se realiza de forma automática. Os
estudos de Santos et al. (2016) e Sonego e Behar (2019) indicam que esses
recursos podem favorecer autonomia, colaboração, engajamento e participação
ativa dos estudantes. No entanto, também ficou evidente que o uso pedagógico
precisa ser intencional, planejado e mediado pelo professor. Sem essa mediação,
o dispositivo corre o risco de ser apenas um suporte de entretenimento ou um
elemento de dispersão, sem contribuir efetivamente para uma aprendizagem
significativa.
Também
aprendi, a partir do texto de Bernardo e Karwoski (2017), que a relação dos
estudantes com a leitura em dispositivos móveis exige atenção. Embora as telas
facilitem o acesso rápido à informação, elas também podem provocar uma leitura
mais fragmentada, superficial e cansativa, especialmente quando se trata de
textos longos. Isso me levou a compreender que o uso pedagógico dos
dispositivos digitais precisa considerar não apenas entusiasmo e inovação, mas
também limites cognitivos, condições de leitura, objetivos didáticos e
características da atividade proposta.
Além
disso, os textos reforçaram a ideia de que a aprendizagem significativa com
tecnologias móveis depende da interação, da interatividade e da construção
ativa do conhecimento. Nesse sentido, entendi que não basta trocar o quadro ou
o livro por uma tela. É preciso criar situações em que o estudante participe,
questione, produza, compartilhe e relacione o conteúdo com sua própria
experiência. Nessa direção, Dusi, Pedrosa e Santos (2024) contribuem ao
evidenciar que a aprendizagem docente também se transforma no contato com as
tecnologias digitais, exigindo reflexão sobre a prática e reconstrução do saber
pedagógico. De forma mais ampla, Wang et al. (2024) reforçam que as
transformações educacionais impulsionadas pelas tecnologias digitais estão
associadas não apenas à presença dos recursos, mas às mudanças estruturais,
metodológicas e culturais que eles demandam.
Para
realizar a entrevista, optei por uma abordagem semiestruturada, organizada a
partir de quatro perguntas centrais que orientaram todo o roteiro: o conceito
de aprendizagem móvel; os tipos de dispositivos e suas potencialidades; a
contribuição das tecnologias para autonomia e engajamento; e os caminhos para
promover interação e aprendizagem significativa com artefatos tecnológicos.
Essa escolha metodológica permitiu manter um foco teórico definido, mas também
abriu espaço para que o entrevistado trouxesse exemplos concretos, percepções
pessoais e situações do cotidiano.
No
meu caso, o entrevistado foi Caio, meu filho, de 8 anos. Essa escolha
tornou a atividade ainda mais significativa, porque me permitiu aproximar o
debate acadêmico da vivência real de uma criança inserida em contextos de uso
de tecnologia para estudar, pesquisar e se comunicar. Além disso, a entrevista
foi um momento muito divertido para nós dois, pois transformou uma atividade do
doutorado em uma experiência leve, afetiva e, ao mesmo tempo, rica em
reflexões. Conversar com ele sobre escola, telas, pesquisas e formas de
aprender ajudou a perceber, de maneira muito concreta, como os dispositivos
móveis já fazem parte do universo infantil e educacional.
Durante
a condução da entrevista, procurei traduzir os conceitos teóricos em uma
linguagem acessível, adequada à idade e à experiência do entrevistado. Essa foi
uma decisão importante, porque a intenção não era apenas obter respostas, mas
compreender como os dispositivos móveis aparecem, de fato, no cotidiano de
aprendizagem. A partir das falas de Caio, foi possível identificar situações
que dialogam diretamente com a literatura, como a aprendizagem em diferentes
espaços, o uso de tablets e celulares para pesquisas escolares, a percepção
sobre cansaço nas telas e o interesse maior por práticas mais interativas.
Depois
da entrevista, fiz um movimento de análise comparativa entre as respostas
obtidas e as ideias centrais dos artigos estudados. Esse processo foi
fundamental, porque mostrou que a literatura não está distante da realidade; ao
contrário, ela ajuda a interpretar práticas aparentemente simples do dia a dia.
Assim, a entrevista não funcionou apenas como um levantamento de opiniões, mas
como um recurso para materializar os conceitos discutidos nos textos e
evidenciar como a tecnologia pode, ao mesmo tempo, abrir possibilidades e
exigir cuidados pedagógicos.
De
modo geral, esta atividade me permitiu aprender que os dispositivos móveis
podem contribuir muito para o ensino-aprendizagem, desde que sejam
compreendidos como instrumentos pedagógicos e não apenas como aparatos
tecnológicos. Aprendi também que a inovação não está no dispositivo em si, mas
na forma como ele é integrado ao planejamento, à mediação docente e às
experiências dos estudantes. A entrevista, por sua vez, foi essencial para
tornar essa discussão mais concreta, mostrando que a aprendizagem móvel já faz
parte da vida dos sujeitos, mas precisa ser orientada criticamente para
produzir sentido educacional.
Link para o vídeo: https://youtu.be/Q3z9svWRl6s
Deixem seu like no vídeo e um "Oi" para o Caio... rsrsrrs! 😉😉
Bibliografia Básica
SANTOS, E.; PORTO, C. App-Education: fundamentos, contextos e práticas educativas luso-brasileiras na cibercultura. EDUFBA, Salvador, 2019.
BERNARDO, J. C. O; KARWOSKI, A. M. A leitura em dispositivos digitais móveis. ETD, Campinas, v. 19, n. 4, p. 795-807, dez. 2017 . Disponível em <http://educa.fcc.org.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1676- 25922017000500795&lng=pt&nrm=iso>. acessos em 22 mar. 2026.
SANTOS, S. L.; STAHL, N. S. P; DA SILVA, M. A. G. T.; SARDINHA, L. C. Dispositivos móveis: um facilitador no processo ensino-aprendizagem. Revista Vértices, [S. l.], v. 18, n. 2, p. 121–139, 2016. Disponível em: https://editoraessentia.iff.edu.br/index.php/vertices/article/view/1809-2667.v18n216- 09.. Acesso em: 22 mar. 2026.
SONEGO, A. H. S; BEHAR, P. A. M-learning: o uso de dispositivos móveis por uma geração conectada. Educação. Porto Alegre, Porto Alegre, v. 42, n. 3, p. 514-524, set. 2019 . Disponível em <http://educa.fcc.org.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1981- 25822019000300514&lng=pt&nrm=iso>. acessos em 23 mar. 2026. Epub 10-Fev- 2020.
Bibliografia Complementar
DUSI, L. L.; PEDROSA, S. M. P. A; SANTOS, S. R. M. Tecnologias digitais e aprendizagem docente:histórias em função de um saber específico. Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 33, n. 74, p. 119–132, 2024.
WANG, C.; CHEN, X.; YU, T.; LIU, Y.; JING, Y. Education reform and change driven by digital technology: a bibliometric study from a global perspective. Humanities and Social Sciences Communications, [S.l.], v. 11, 2024. DOI: 10.1057/s41599-024-02717-y.

Gostei muito de como você não ficou só na defesa geral da aprendizagem móvel, mas trouxe o movimento de comparar as falas do Caio com a literatura, mostrando que a entrevista não foi um enfeite da atividade, e sim uma forma de concretizar os conceitos discutidos nos textos. Também achei muito sensível a escolha de traduzir os conceitos para uma linguagem acessível à idade dele, porque isso mostra cuidado metodológico e não apenas criatividade na execução.
ResponderExcluirSó fiquei triste porque o vídeo não está mais disponível, fiquei curiosa pra ver como você materializou tudo isso na prática.
Obrigado Rute. Inclusive obrigado por avisar que não tá disponível kkkkk. Acabei de corrigir o link. Tenta verificar agora, por favor.
ExcluirExcelente escolha, Ricardo! Trazer o Caio para o centro dessa discussão foi uma estratégia brilhante para 'tirar o texto do papel'. Muitas vezes discutimos a infância e a tecnologia de forma abstrata, e ouvir o que uma criança de 8 anos tem a dizer sobre o cansaço das telas e o uso do tablet para pesquisa valida diretamente as preocupações de Bernardo e Karwoski (2017). O seu relato demonstra que a aprendizagem móvel não é um conceito futurista, mas uma realidade que já atravessa nossas relações afetivas e cotidianas. Parabéns pela leveza e pelo rigor teórico!
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